domingo, agosto 14, 2005

fim do espaço

RUSTDOOR byRobert Ortiz


quarta-feira, junho 29, 2005

aos 2 ou 3 únicos leitores deste blog ;)

Volto de segunda feira a tês semanas.
Fiquem bem!

terça-feira, junho 28, 2005

contra o vento

um dia chegou um telegrama de longe. não esperado.

ela não estava em casa. divertia-se no meio da sua pequena corte, atordoada com o que não sabia ser uma ilusão.

quem sabe de ilusões na juventude?

foi pelo telefone lido o telegrama. só ao desligar entendeu o peso da palavra fundamental do texto, morte.

não chorou. estremeceu de um frio grande, prolongado.

que havia a fazer? nada. agora nenhum verde batia com a perda do amigo abandonado ou quase.

revolta contra si. raiva de si. e a falta a fazer-se sentir já.

lá fora assobiava a tempestade. o vento fazia bater uma janela mal fechada. chovia.

abriu a porta e deixou-a aberta.

saiu e não levou a chave.

caminhou de encontro ao vento até ao campo, na procura do essencial e não voltou.

dizem os vizinhos que, nos dias de tempestade, as portas batem como nesse dia e o choro dela se ouve vindo do canavial, do mato, do verde.

mas será?


Emilio

vaidade.

encontrada a beleza do verde achou-se bela. passou a achar natural tantos elogios. a estranhar se não vinham. a provocá-los quase.

deixou o namorado. ele não deixou de ser amigo ou de a amar, não sei.

circulava entre as gentes como brisa.

agreste, fria. nela o verde parecia cada vez mais azul. mas não notava. na natureza quase tudo o que era bom tinha a cor dos seus olhos. estava certa na vida, pensava. era no centro do mundo o seu lugar.
foi-se o rapaz à guerra. tinha de ir. à despedida disse-lhe:

- és um girassol, de olhos verdes, meu amor!

sorriu, escreveu de início. depois quase o esqueceu.

era uma flor e as flores são para contemplar. julgava.

também julgava ser feliz.

segunda-feira, junho 27, 2005

desertos

a tentação?

madalena por certo a sentiu, que era mulher normal. feita de carne. isso que importa. até por isso gosta do seu nome.

madalena, mulher de perto dos desertos. iria buscar água pelo calor. coberta protegida do sol. cercada de vazio.


Woman at a pond in the desert Thar

lembra as árabes que viu e tinham olhos verdes. escuras e de olhos verdes. madalena não os teria não.

onde estava então o verde dela?

madalena tinha de ter verde para que houvesse sentido na magia do seu adolescente olhar.

ia à água. com as aves. e por perto uma árvore, verde, assegurava o norte, o lugar onde. para que não se perdesse no deserto, madalena, ao ir pela água para se refrescar.

domingo, junho 26, 2005

a tentação?

não era muito dada a cegas fés. a acreditar só porque lhe diziam.

nunca negara os deuses de ninguém. todos os precisavam. ela acreditava mais no amor como caminho para qualquer salvação, mas era ela. e ela era só uma rapariga cheia de certezas e dúvidas tão dentro da idade!

numa coisa não cedia nunca e com ninguém: deus não era um papão a quem por medo tinha de obedecer-se. se havia um deus tinha de ser um pai amável e amante do que criara como bom.

muitas vezes a criticaram nessa forma de ver. não importava.

era como isso de tudo ser pecado, se era bom. que deus poria tanta coisa no mundo só para nos tentar? sádico deus?

olhando a simpleza da maçã, sorriu.

- não. não foi este o pecado original.



"Green Apple" By Marilyn Sears Bourbon

- e a maçâ era verde!

sono.

e enquanto outros, insones, sofrem a noite, a rapariga, ela ou a juventude? não importa, importa a paz que aí se revela e fecunda, enquanto outros já sofrem pelo que não hão-de ter, dorme um profundo sono.

ela tem olhos verdes, viu o espelho, os rapazes disseram. ela tem o que nela nasceu e o sono veio assim como o sonho que o seguiu.

sonhou príncipes-sapos, disfarçados nos nenúfares de um lago nascido de um rio de sonho, azul e verde.

e assim ao despertar entende quase, quase apenas.



sexta-feira, junho 24, 2005

chuva.

nunca entenderá bem o que leva a gostar ou não gostar de alguém pela convencional beleza. conheceu gente bonita a quem nunca achou graça, e feia de quem esqueceu a fealdade e a encantou. daí que o mistério dos olhos a perturbe.

não demais, que tem muito em que pensar. mas naqueles momentos em que se é simples rapariga e se olha no espelho, sem outro assunto que não seja o de olhar-se.

- se eu fosse uma flor, entenderia. as flores querem-se belas. não se espera mais de uma flor do que cor e perfume. agora gente? gente tem de ter conteúdo. não ser saco vazio de uma bonita cor.

sentiu grossas gotas de chuva cairem-lhe no rosto. estava tão distraída no jardim que nem dera pelo chegar da nuvem carregada de água fresca de limpar ares e regar plantas.

plantas. olhou em volta. tudo verde. até as gotas que tinham recém caído sobre as folhas sedentas.




por reflexo, pareciam gotas verdes de água pura.

terça-feira, junho 21, 2005

os gatos.

não era grande admiradora de cães, até os entender melhor. mas quando se é novo não se tem tempo para parar muito. o tempo voa.

- a juventude dura um minuto e 30 segundos acabam de passar.

assim vivia ela e os outros em volta. os tempos eram de revolta subterrânea à beirinha de extravasar.
não tinha sonhos desmedidos. sonhava os montes e vales que perdera e um amor que deveria parecer-se em quase tudo com o Georges Moustaki, o do métèque, no sorriso na viola na avidez de vida.

mas eram aqueles jovens quem a perseguia. por causa da voz mas sobretudo dos olhos, era o que diziam.

decidiu aceitar um namorado.

- quem sabe assim...

ainda por cima ele em breve teria de partir, para a guerra. era namoro de curto prazo. nada havia a temer.

um dia ouviu, já quase noite um miado triste como voz de mendigo. não sendo muito dada a essas coisas não resistiu a ir ver o animal.

estava perdido. tinha sede e fome. deu-lhe leite. enquanto bebia fez-lhe uma festa que ele permitiu. foi então guardar a taça e voltou logo.

o gato já partira. não tinha nada a agradecer. recebera por ela o que o universo lhe devia.

os gatos são livres. os gatos são assim.

- tinha olhos verdes - ficou a pensar.