Domingo, Agosto 14, 2005
Quarta-feira, Junho 29, 2005
Terça-feira, Junho 28, 2005
contra o vento
ela não estava em casa. divertia-se no meio da sua pequena corte, atordoada com o que não sabia ser uma ilusão.
quem sabe de ilusões na juventude?
foi pelo telefone lido o telegrama. só ao desligar entendeu o peso da palavra fundamental do texto, morte.
não chorou. estremeceu de um frio grande, prolongado.
que havia a fazer? nada. agora nenhum verde batia com a perda do amigo abandonado ou quase.
revolta contra si. raiva de si. e a falta a fazer-se sentir já.

Emilio
vaidade.
Segunda-feira, Junho 27, 2005
desertos

Woman at a pond in the desert Thar
lembra as árabes que viu e tinham olhos verdes. escuras e de olhos verdes. madalena não os teria não.
Domingo, Junho 26, 2005
a tentação?
nunca negara os deuses de ninguém. todos os precisavam. ela acreditava mais no amor como caminho para qualquer salvação, mas era ela. e ela era só uma rapariga cheia de certezas e dúvidas tão dentro da idade!
numa coisa não cedia nunca e com ninguém: deus não era um papão a quem por medo tinha de obedecer-se. se havia um deus tinha de ser um pai amável e amante do que criara como bom.
muitas vezes a criticaram nessa forma de ver. não importava.
era como isso de tudo ser pecado, se era bom. que deus poria tanta coisa no mundo só para nos tentar? sádico deus?
olhando a simpleza da maçã, sorriu.
- não. não foi este o pecado original.

"Green Apple" By Marilyn Sears Bourbon
- e a maçâ era verde!
sono.
ela tem olhos verdes, viu o espelho, os rapazes disseram. ela tem o que nela nasceu e o sono veio assim como o sonho que o seguiu.
sonhou príncipes-sapos, disfarçados nos nenúfares de um lago nascido de um rio de sonho, azul e verde.
e assim ao despertar entende quase, quase apenas.

Sexta-feira, Junho 24, 2005
chuva.
nunca entenderá bem o que leva a gostar ou não gostar de alguém pela convencional beleza. conheceu gente bonita a quem nunca achou graça, e feia de quem esqueceu a fealdade e a encantou. daí que o mistério dos olhos a perturbe.
não demais, que tem muito em que pensar. mas naqueles momentos em que se é simples rapariga e se olha no espelho, sem outro assunto que não seja o de olhar-se.
- se eu fosse uma flor, entenderia. as flores querem-se belas. não se espera mais de uma flor do que cor e perfume. agora gente? gente tem de ter conteúdo. não ser saco vazio de uma bonita cor.
sentiu grossas gotas de chuva cairem-lhe no rosto. estava tão distraída no jardim que nem dera pelo chegar da nuvem carregada de água fresca de limpar ares e regar plantas.
plantas. olhou em volta. tudo verde. até as gotas que tinham recém caído sobre as folhas sedentas.

por reflexo, pareciam gotas verdes de água pura.
Terça-feira, Junho 21, 2005
os gatos.
- a juventude dura um minuto e 30 segundos acabam de passar.
assim vivia ela e os outros em volta. os tempos eram de revolta subterrânea à beirinha de extravasar.

mas eram aqueles jovens quem a perseguia. por causa da voz mas sobretudo dos olhos, era o que diziam.
decidiu aceitar um namorado.
- quem sabe assim...
ainda por cima ele em breve teria de partir, para a guerra. era namoro de curto prazo. nada havia a temer.
um dia ouviu, já quase noite um miado triste como voz de mendigo. não sendo muito dada a essas coisas não resistiu a ir ver o animal.
estava perdido. tinha sede e fome. deu-lhe leite. enquanto bebia fez-lhe uma festa que ele permitiu. foi então guardar a taça e voltou logo.
o gato já partira. não tinha nada a agradecer. recebera por ela o que o universo lhe devia.
os gatos são livres. os gatos são assim.
- tinha olhos verdes - ficou a pensar.




